sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

DAS RECORDAÇÕES DA RUA GETÚLIO VARGAS EM ITAPECURU-MIRIM

 

    *Samira Fonseca

Na canção o Tempo e o Rio, de Têtes Raides, interpretada por Maria Bethânia diz: “o tempo é como um rio que caminha para o mar”, quando olho para a minha rua percebo que o trecho da canção nunca teve tanto sentido como atualmente e como diz o poema de Cecília Meireles, “eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil”, o fato é que ela aconteceu e desde os primeiros raios de sol já pode ser vista.

Recordo de na minha infância acordar todas as manhãs com o canto escandaloso de vários galos que desde às 5h já terciam o amanhecer, despertando-nos para mais um dia de trabalho. Hoje desperto com um quebra-quebra advindo da casa do novo vizinho e o motivo? O velho adultério. Ah se meu tio Ném fosse vivo, com certeza diria: “Só deu pra radiola dele!”. E por falar no tio Ném, lembrei de quando cedo ele vinha aqui em casa conversar com meu pai, chegava em sua monark azul de barra circular, na prosa dos dois estava assuntos de serviço, da vizinhança da rua onde ele morava e sobre a pescaria que no final da tarde ele faria, sozinho.

Não demorava muito, dona Lídia passava com uma trouxa de roupas na cabeça e um balaio nas mãos, rumo ao rio Itapecuru. Junto a ela as filhas cuja alcunha era Mocinha e Dondinha; iam lavar roupas de outras pessoas a fim de ganhar um dinheirinho para ajudar a alimentar a família, que ainda era composta por dois rapazes. Hoje paro para refletir e vejo que que a Senhora das águas, ali junto a ela, lavava a alma daquela gente pobre e sofredora.

Esses velhos areais entranhados na rua Getúlio Vargas, traz a minha memória as tardes ensolaradas onde eu, sem ter o que fazer depois das atividades escolares, saía correndo atrás das borboletas amarelas e depois do esforço para capturá-las, mostrava à minha avó e ela do nada me colocou um medo na alma, quando disse que eu ficaria cega, caso passasse os dedos nos olhos os quais estariam sujos do pó ou seja, das escamas do inseto.  O que tempos depois descobri não ser verdade, os estudos científicos afirmam que dá apenas uma irritação ocular, mas não cega. Pelo sim ou pelo não, sigo as instruções de minha avó até hoje. 

No fim da tarde descia à rua de piçarras, dona Maria Senna, responsável por fazer o melhor bolo de arroz que havia em Itapecuru-Mirim. Não demorava muito, Mariel passava com uma panela cheia de mingau de milho e uma garrafa de café. Atrás vinha tia Telma com uma travessa contendo bolos de arroz com cravos da índia e bolos de milho, estes últimos já vinham cortados em quadrados, e seriam vendidos pelas mãos de dona Maria Aragão, ali ao lado do antigo hotel de seu Bebé. Ah, aqueles bolos eram melhores que quaisquer outros produzidos em panificadoras ou casas do bolo de hoje em dia! Em especial o bolo de milho que exalava um doce perfume de milho verde, e atualmente se converteu em cheiro de saudade.

E como não lembrar de dona “Dos Reis”, o passarinho do Senhor, com seus cabelos longos e lisos, que preparava a celebração de um culto diante de sua casa.  Até hoje recordo dos hinos da harpa cristã sendo entoados por ela e por seus irmãos que, eu na minha inocência, chamava de “crentes” e não de protestantes.

Dona Isabel e seu Zé Pezinho sentavam a porta de sua residência para conversar com dona Alcira e Mariazinha, enquanto na calçada dos fundos da antiga Clínica Santa Rosa, o filho adotivo deles, Willian, fazia a armação de uma pipa que provavelmente soltaria no dia seguinte. Jamais poderia imaginar que aquela criança viveria por pouco tempo e teria sua vida ceifada com um golpe de facão no pescoço, viraria mais um nas estatísticas da violência de Itapecuru-Mirim.

Mas voltando as minhas lembranças, recordo de Carrinho, morador da Avenida Beira-Rio, que todo final de tarde colocava a mesa para o jogo de dominó e minutos depois homens daquela e de outras ruas vizinhas, caminhavam para jogar mais uma partida. Da porta de minha casa dava para se ouvir a batida das peças na mesa e a voz de alguém gritando, “barata!”

Hoje a rua de Paralelepípedos que ocultaram as pegadas de nossos ancestrais, segue meio que tranquila, silenciosa em boa parte do tempo, salvo em algumas vezes, como o caso da desavença do novo vizinho. Mas quieta, reflexiva, talvez pensando que um dia já foi mais feliz com a simplicidade de seus primeiros moradores. E mais adiante está o rio Itapecuru, de encantos lendários, segue calmo a caminho do mar, semelhante ao tempo que leva para longe minhas recordações da rua Getúlio Vargas.

    *Samira Fonseca é formada em Língua Portuguesa e Mestranda em Literatura pela Universidade Federal de Tocantins, ocupante da cadeira n° 33 da Academia Vargem-Grandense de Letras e Artes.

 

DAS RECORDAÇÕES DA RUA GETÚLIO VARGAS EM ITAPECURU-MIRIM

      *Samira Fonseca Na canção o Tempo e o Rio, de Têtes Raides, interpretada por Maria Bethânia diz: “o tempo é como um rio que caminha ...