*Samira Fonseca
Na canção o Tempo e o Rio, de Têtes
Raides, interpretada por Maria Bethânia diz: “o tempo é como um rio que
caminha para o mar”, quando olho para a minha rua percebo que o trecho da
canção nunca teve tanto sentido como atualmente e como diz o poema de Cecília
Meireles, “eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil”,
o fato é que ela aconteceu e desde os primeiros raios de sol já pode ser vista.
Recordo de na minha infância acordar todas
as manhãs com o canto escandaloso de vários galos que desde às 5h já terciam o
amanhecer, despertando-nos para mais um dia de trabalho. Hoje desperto com um
quebra-quebra advindo da casa do novo vizinho e o motivo? O velho adultério. Ah
se meu tio Ném fosse vivo, com certeza diria: “Só deu pra radiola dele!”.
E por falar no tio Ném, lembrei de quando cedo ele vinha aqui em casa conversar
com meu pai, chegava em sua monark azul de barra circular, na prosa dos
dois estava assuntos de serviço, da vizinhança da rua onde ele morava e sobre a
pescaria que no final da tarde ele faria, sozinho.
Não demorava muito, dona Lídia passava com
uma trouxa de roupas na cabeça e um balaio nas mãos, rumo ao rio Itapecuru.
Junto a ela as filhas cuja alcunha era Mocinha e Dondinha; iam lavar roupas de
outras pessoas a fim de ganhar um dinheirinho para ajudar a alimentar a família,
que ainda era composta por dois rapazes. Hoje paro para refletir e vejo que que
a Senhora das águas, ali junto a ela, lavava a alma daquela gente pobre e
sofredora.
Esses velhos areais entranhados na rua
Getúlio Vargas, traz a minha memória as tardes ensolaradas onde eu, sem ter o
que fazer depois das atividades escolares, saía correndo atrás das borboletas
amarelas e depois do esforço para capturá-las, mostrava à minha avó e ela do
nada me colocou um medo na alma, quando disse que eu ficaria cega, caso
passasse os dedos nos olhos os quais estariam sujos do pó ou seja, das escamas
do inseto. O que tempos depois descobri
não ser verdade, os estudos científicos afirmam que dá apenas uma irritação
ocular, mas não cega. Pelo sim ou pelo não, sigo as instruções de minha avó até
hoje.
No fim da tarde descia à rua de piçarras,
dona Maria Senna, responsável por fazer o melhor bolo de arroz que havia em
Itapecuru-Mirim. Não demorava muito, Mariel passava com uma panela cheia de
mingau de milho e uma garrafa de café. Atrás vinha tia Telma com uma travessa
contendo bolos de arroz com cravos da índia e bolos de milho, estes últimos já
vinham cortados em quadrados, e seriam vendidos pelas mãos de dona Maria
Aragão, ali ao lado do antigo hotel de seu Bebé. Ah, aqueles bolos eram
melhores que quaisquer outros produzidos em panificadoras ou casas do bolo de
hoje em dia! Em especial o bolo de milho que exalava um doce perfume de milho
verde, e atualmente se converteu em cheiro de saudade.
E como não lembrar de dona “Dos Reis”, o
passarinho do Senhor, com seus cabelos longos e lisos, que preparava a
celebração de um culto diante de sua casa.
Até hoje recordo dos hinos da harpa cristã sendo entoados por ela e por
seus irmãos que, eu na minha inocência, chamava de “crentes” e não de
protestantes.
Dona Isabel e seu Zé Pezinho sentavam a
porta de sua residência para conversar com dona Alcira e Mariazinha, enquanto
na calçada dos fundos da antiga Clínica Santa Rosa, o filho adotivo deles,
Willian, fazia a armação de uma pipa que provavelmente soltaria no dia
seguinte. Jamais poderia imaginar que aquela criança viveria por pouco tempo e
teria sua vida ceifada com um golpe de facão no pescoço, viraria mais um nas
estatísticas da violência de Itapecuru-Mirim.
Mas voltando as minhas lembranças, recordo
de Carrinho, morador da Avenida Beira-Rio, que todo final de tarde colocava a
mesa para o jogo de dominó e minutos depois homens daquela e de outras ruas
vizinhas, caminhavam para jogar mais uma partida. Da porta de minha casa dava
para se ouvir a batida das peças na mesa e a voz de alguém gritando, “barata!”
Hoje a rua de Paralelepípedos que
ocultaram as pegadas de nossos ancestrais, segue meio que tranquila, silenciosa
em boa parte do tempo, salvo em algumas vezes, como o caso da desavença do novo
vizinho. Mas quieta, reflexiva, talvez pensando que um dia já foi mais feliz
com a simplicidade de seus primeiros moradores. E mais adiante está o rio
Itapecuru, de encantos lendários, segue calmo a caminho do mar, semelhante ao
tempo que leva para longe minhas recordações da rua Getúlio Vargas.
*Samira
Fonseca é formada em Língua Portuguesa e Mestranda em Literatura pela
Universidade Federal de Tocantins, ocupante da cadeira n° 33 da Academia
Vargem-Grandense de Letras e Artes.